ansiedade
Ansiedade e insônia andam juntas
A ansiedade tira o sono e a noite mal dormida aumenta a ansiedade. Entenda o ciclo, o que ajuda e quando procurar avaliação.
Dr. Lucas BatistuzzoMÉDICO: CRM-SP 208.095Médico de Família e Comunidade: RQE 100842

Neste artigo
Ansiedade e insônia costumam aparecer juntas, e a relação vai nos dois sentidos. A preocupação atrapalha o sono, e a noite mal dormida deixa a ansiedade mais difícil de controlar 3. Por isso, quando uma das duas aparece, vale olhar para a outra também.
Quem vive isso costuma perguntar duas coisas: por onde começar e quando a noite ruim deixa de ser só uma fase. As duas respostas estão abaixo, com as fontes no fim.
Por que a ansiedade tira o sono?
O NHS, o serviço público de saúde da Inglaterra, coloca estresse, ansiedade e depressão entre as causas mais comuns de insônia 1. E a dificuldade para dormir está na lista de sintomas do transtorno de ansiedade generalizada, junto com inquietação, tensão e cansaço fácil 2.
Uma revisão de estudos sobre o tema descreve a insônia como um estado de alerta aumentado, em que o cérebro tem dificuldade de desligar os sistemas que mantêm a gente acordado 3. A isso se somam a preocupação, a ruminação e os pensamentos acelerados 3. Na prática, é quem deita exausto e sente que a cabeça não desliga.
Alguns hábitos que andam junto com a ansiedade também pesam. O NHS lembra que café, chá, refrigerante de cola e energético têm cafeína, que pode atrapalhar o sono e deixar a ansiedade mais difícil de controlar 2.
Como um alimenta o outro
- 01Mente acelerada
- 02Custa a dormir
- 03Medo da noite
- 04Dia mais ansioso
O sono ruim piora a ansiedade?
Pode piorar. A mesma revisão aponta que o sono ruim, em especial a insônia, pode ser um fator de risco para o surgimento de transtornos de ansiedade 3. E existe um caminho que prende a pessoa no problema: quem dorme mal passa a se preocupar com o próprio sono e com o dia seguinte, e essa preocupação deixa o corpo em alerta e piora a insônia 3.
Vira um ciclo, sabe? A pessoa começa a ter receio da hora de dormir, e esse receio já é ansiedade.
A Associação Brasileira do Sono, no consenso que publicou em 2023, registra que a insônia aparece com frequência junto dos transtornos de ansiedade e que, quando vem acompanhada de outra condição, ela precisa de um tratamento próprio 4. Na prática, o sono merece atenção dele mesmo, ainda que a ansiedade também esteja sendo cuidada.
Nem toda noite ruim é insônia
Todo mundo tem noites ruins e dias de preocupação. O NHS lembra que sentir ansiedade de vez em quando é comum e não quer dizer, por si só, um transtorno. Pesa mais quando ela está presente a maior parte do tempo e atrapalha a rotina 2.
Com o sono vale a mesma lógica. Pelo consenso brasileiro, fala-se em insônia crônica quando a dificuldade para pegar no sono, para manter o sono ou o despertar cedo demais acontecem pelo menos três vezes por semana, durante pelo menos três meses 4.
O que ajuda no dia a dia
Para a insônia, o NHS recomenda mudar alguns hábitos 1:
- acordar e sair da cama no mesmo horário todos os dias;
- ir para a cama só quando estiver com sono;
- reservar a última hora antes de deitar para relaxar, com um banho ou um livro;
- deixar o quarto escuro e silencioso;
- fazer exercício durante o dia, e não nas quatro horas antes de dormir;
- evitar álcool, cigarro, chá e café nas seis horas antes de deitar;
- deixar televisão e celular de lado logo antes de dormir;
- não cochilar durante o dia e não compensar dormindo até mais tarde depois de uma noite ruim.
Para a ansiedade, o mesmo serviço sugere exercícios de respiração para acalmar, atividade física regular, que reduz a ansiedade e o estresse e ajuda a dormir melhor, e menos cafeína 2.
Esses hábitos são a base, e vale começar por eles. Só que o consenso brasileiro não recomenda a higiene do sono sozinha como tratamento da insônia crônica: ela deve entrar como parte da terapia cognitivo-comportamental 4. Se você já arrumou a rotina e o sono não voltou, isso não quer dizer que você fez algo errado.
A terapia cognitivo-comportamental para insônia
A terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida pela sigla TCC-I, é considerada a primeira linha de tratamento da insônia crônica no consenso da Associação Brasileira do Sono, com eficácia documentada também quando a insônia vem junto de condições psiquiátricas 4. Ela reúne orientação sobre o sono, controle de estímulos, restrição do tempo na cama, trabalho com os pensamentos e técnicas de relaxamento. Em geral são de quatro a oito sessões 4.
Os estudos reunidos no consenso mostram melhora também dos sintomas de ansiedade, depressão e estresse com a TCC-I completa 4. E o documento diz que o atendimento online não fica atrás do presencial 4.
E o remédio?
Às vezes entra medicação, para o sono ou para a ansiedade, e isso se decide na consulta, olhando o conjunto. O NHS explica que remédio para dormir, quando é usado, fica restrito a poucos dias ou, no máximo, algumas semanas, porque pode ter efeitos colaterais sérios e causar dependência 1. E orienta falar com o médico antes de tomar qualquer coisa para dormir, inclusive o que se compra na farmácia sem receita 1.
Quando é hora de procurar avaliação?
Vale marcar uma consulta quando mudar os hábitos não resolveu, quando o sono ruim já dura meses ou quando ele atrapalha a sua vida a ponto de ficar difícil dar conta do dia 1. O mesmo vale para a ansiedade que está presente a maior parte do tempo e interfere na rotina 2.
Alguns sinais apontam para outra causa. Ronco forte ou pausas na respiração durante o sono podem ser apneia, um outro distúrbio do sono, com avaliação própria 1, 4. Alguns remédios também podem causar insônia 1, então vale levar para a consulta a lista do que você usa.
Se a dúvida é qual profissional procurar, escrevi sobre isso em qual médico procurar quando a ansiedade aparece.
Se a angústia ficar difícil de suportar, não espere a consulta: os contatos de ajuda imediata estão no fim deste texto.
Eu não gosto de etiquetar as pessoas.
Como é a avaliação com o médico de família?
O diagnóstico da insônia é essencialmente clínico, feito a partir de uma conversa bem conduzida 4. A consulta comigo dura de uma hora a uma hora e quinze, e a primeira metade é sua: você conta do seu jeito o que está acontecendo.
Depois eu pergunto como são o seu dia e a sua noite, o que costuma disparar a preocupação, que remédios você usa e se há outras questões de saúde envolvidas, que é o que o consenso brasileiro recomenda avaliar 4. Um recurso comum nessa etapa é o diário do sono, um registro feito todo dia ao acordar 4. Sobre a ansiedade, a conversa passa pelas preocupações e pelos sintomas no corpo, e ajuda muito falar com franqueza, mesmo quando é difícil falar de emoção 2.
O plano a gente decide junto, porque a vida é sua. Eu conduzo o acompanhamento, e quando o caso pede outro profissional, como alguém treinado em TCC-I ou outro colega, eu encaminho e sigo com você. Uns quinze dias depois da consulta chega uma mensagem para saber como você está, e os retornos vão se espaçando com o tempo.
A consulta pode ser presencial ou por telemedicina, e a Karina cuida da agenda pelo WhatsApp. Contei o passo a passo em como é a consulta com o médico de família e na seção como é a consulta do site.
Quando procurar o médico
- Você mudou os hábitos de sono e as noites continuam ruins 1.
- A dificuldade para dormir já dura meses, ou aparece três ou mais noites por semana 1, 4.
- O cansaço e a preocupação estão atrapalhando o trabalho, a casa ou as relações 1, 2.
- A ansiedade está presente a maior parte do tempo 2.
- Há ronco forte ou pausas na respiração durante o sono 1.
Em crise ou com pensamentos de se machucar, ligue para o CVV no 188 (24 horas, sem custo de ligação). Com risco imediato, SAMU 192 ou pronto-socorro 5, 6.
Dr. Lucas BatistuzzoMÉDICO: CRM-SP 208.095Médico de Família e Comunidade: RQE 100842
Este texto é informativo e não substitui a consulta. Revisado em 18 de setembro de 2026.
Fontes
- Insomnia, NHS (National Health Service, Reino Unido). Página revisada em 19/03/2024. Acesso em 18/09/2026. https://www.nhs.uk/conditions/insomnia/
- Generalised anxiety disorder in adults (Overview), NHS (National Health Service, Reino Unido). Página revisada em 22/10/2024. Acesso em 18/09/2026. https://www.nhs.uk/mental-health/conditions/generalised-anxiety-disorder/overview/
- Palagini L, Miniati M, Caruso V, Alfi G, Geoffroy PA et al. Insomnia, anxiety and related disorders: a systematic review on clinical and therapeutic perspective with potential mechanisms underlying their complex link. Neuroscience Applied, v. 3, 2024. doi:10.1016/j.nsa.2024.103936. Acesso em 18/09/2026. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12244189/
- Consenso de Diagnóstico e Tratamento da Insônia em Adultos 2023, Associação Brasileira do Sono (publicado na Sleep Science, suplemento 002/2023, v. 16). Acesso em 18/09/2026. https://absono.com.br/wp-content/uploads/2024/07/30332-Consenso-Brasileiro-de-Insonia.pdf
- CVV, Centro de Valorização da Vida. Acesso em 18/09/2026. https://cvv.org.br/
- SAMU 192, Ministério da Saúde. Acesso em 18/09/2026. https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/samu-192



